sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O Candomblé





O Candomblé
(Extraido do OBI - Baba Ifaleke - Adilson Martins)

O Candomblé é a forma de culto existente no Brasil, das divindades de origem africana.
A forma original, trazida há mais de quatrocentos anos pelos escravos negros, submetida a um processo de aculturação, resultou num modelo novo, muito diferente daquela da qual provém e que serve hoje, tão somente, como ponto de referência, de acordo com a reformulação ou total rejeição de muitos de seus elementos.
A influência da civilização cristã, assim como os costumes de grupos ameríndios, foram assimilados e seus traços culturais podem ser observados mesmo nas mais tradicionais casas de Candomblé, que auto-intitulam-se "núcleos de resistência religiosa e cultural".
A caracterísca de núcleo de resistência, destiolou-se através dos tempos e, o que vemos hoje, é uma prática religiosa em constante processo de renovação, onde as características culturais da minoria, tendem a mudarem, ao reagirem à maioria envolvente.
Este fenômeno pode ser observado também em países da América Latina, onde os cultos de origem africana recebem nomes diferentes, como: Vudú, Palo Mayombe, Santeria, etc., variando de um país ou de uma região para outra, da mesma forma que, no Brasil, podemos encontrar diferentes práticas que variam de região para região, como: Tambor de Mina no Maranhão; Batuque e Babaçuê no Pará; Toré e Catimbó em toda a região nordeste; Pajelança no norte do país; Xangô em Pernambuco; Macumba no Rio de Janeiro e São Paulo; Pará em Porto Alegre; Candomblé na Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, e Umbanda, existente em todo o Território Nacional.1
Os cultos, embora tenham uma origem comum, não são homogêneos, possuindo diferentes procedimentos litúrgicos, o que não se verifica somente de região para região, mas também, de terreiro para terreiro, muito embora restem sempre vários elementos comuns a todos os grupos praticantes.
A ausência de um culto direcionado a um Deus Único e Todo-Poderoso, paralelamente ao culto festivo às entidades intermediárias, (Orixás, Voduns ou Inkisis), fez com que Nina Rodrigues escrevesse: "A concepção dos Orixás é francamente politeísta, constitui uma verdadeira mitologia, ao mesmo tempo que sua representação material continua sendo inteiramente fetichista"

Vários outros autores viriam, posteriormente, corrigir tal afirmação, notadamente, Roger Bastide, Edson Carneiro, M.Delafosse, Pierre Verger, L. Solanbê e outros que afirmam a existência, na cultura religiosa dos negros yorubanos, fons e das diversas nações do Sul da África, um Deus Único, Criador de Todas as Coisas, Onisciente e Onipresente.
Este Deus, a que denominam "Ólórun", "Olodumare" ou  "Olofin", é o Ser que controla o universo e todas as coisas, por intermédio de vários agentes denominados, coletivamente, "Orixás". Dessa forma pode-se distinguir o monoteísmo como base desse tipo de prática religiosa. O Candomblé é, portanto, um culto com características exclusivas que o distingue da forma original ainda hoje praticada na África.
A pretensão existente por parte de seus seguidores de vê-lo assumir o status de religião é obstaculizada por sua própria estrutura de organização e atuação.
É bem verdade que esse culto está perfeitamente incluído  no grupo que engloba os sistemas religiosos primitivos, definidos pela ausência de qualquer tradição escrita, mas onde os rituais proliferam com muito mais constância.



OLORUN, OLODUMARE, OLOFIN - OS NOMES DE DEUS.
Segundo a filosofia religiosa africana, O Criador encontra-se em plano tão superior em relação aos seres humanos e, é de tal forma inexplicável e incompreensível, que inútil seria manter-se um culto específico em sua honra e louvor, já que o Absoluto não pode ser alcançado pelo ser humano em decorrência de suas limitações e imperfeições.
Ólórun é o nome mais comumente usado para designar a Divindade Suprema, e esta preferência de uso está ligada à sua aceitação por parte dos islamitas e dos cristãos, que adotaram-no como sinônimo, tanto de Alá, quanto de Jeová.
O termo é fácil de ser analisado e traduzido, uma vez que se compõe de duas palavras apenas: “Ol" de Oni (dono, senhor, chefe) e "Orun" (céu, mundo onde habitam os espíritos mais elevados), formando "Ólórun" - Chefe, Proprietário ou Senhor do Céu.    
O termo "Olodumare" propõe uma idéia mais completa e de maior significado filosófico. Desmembrando a palavra, encontramos os seguintes componentes: "Ol”, “Odú" e "Mare", que passamos a analisar separadamente.
O prefixo "Ol" resulta da substituição, pelo "l" das letras "n" e "i" da palavra "Oni" (dono, senhor, chefe), prefixo utilizado, modificado, ou em sua forma original, para designar o domínio de alguém sobre alguma coisa (propriedade, profissão, força, aptidão, etc.). Ex.: "Olokun" - Senhor dos Oceanos.
O termo intermediário "Odu", possui diversos significados, dependendo das diferentes entonações na sua pronúncia, que no caso é "ôdu"  e que reunido ao prefixo "ol", resulta em "Olodu", cujo significado é: "Aquele que possui o cetro ou a autoridade", ou ainda: "Aquele que é portador de excelentes atributos, que é superior em pureza, grandeza, tamanho e qualidade".
A última palavra componente "mare" é, por sua vez, o resultado do acoplamento de dois termos "ma" e "re", imperativo que significa: "não prossiga", "não vá". A advertência contida no termo, faz referência à incapacidade do ser humano, inerente à sua própria limitação, de decifrar o supremo e sagrado mistério que envolve a existência da Divindade.
Olofin é também uma das designações da Divindade suprema. Quando em extrema aflição, os nagôs costumam solicitar o auxílio divino, invocando os três nomes: Ólórun! Olofin! Olodumare



CANDOMBLÉ, UMA RELIGIÃO?
"O termo religião é, de modo quase geral, relacionado com o verbo latino religare: cumprimento consciencioso do dever, respeito a poderes superiores, profunda reflexão. O substantivo religio, relacionado com o verbo, refere-se ao objeto dessa preocupação interior quanto ao objetivo da atividade a ela relacionada. Outro verbo latino  posterior é citado como fonte do termo, religare, que implica um relacionamento íntimo e duradouro com o sobrenatural”.
As religiões pressupõem sistemas de crença, prática e organização, que estabelecem uma ética manifestada no comportamento de seus seguidores no que concerne ao procedimento ritualístico, (práticas padronizadas e invariáveis, por meio das quais os adeptos representam, de forma simbólica, sua relação com os seres sobrenaturais).
Estes rituais compreendem diferentes propostas, como súplicas, adoração, ou tentativa de controle sobre os acontecimentos, o que conduz então, à prática da magia ou da feitiçaria. É o próprio ritual que pode estabelecer um código de comportamento, através do qual os adeptos poderão se organizar.
“A organização religiosa define os membros da comunidade de crentes, tenta manter a tradição e reunir a dissidência, e, através de diferenciação interna, atribui tarefas religiosas aos crentes”3.
Tudo isso exige, para que possa se efetivar, a existência de uma liderança centralizada numa autoridade sacerdotal, individualizada ou composta por um grupo de adeptos de alta hierarquia. A autoridade aí representada é que irá estabelecer a padronização do ritual, o reconhecimento de novos adeptos e a ordenação de novos sacerdotes.
A partir da organização, do estabelecimento de liderança universalmente aceita e reconhecida, da uniformização ritualística e da codificação de éticas comportamentais e procedimentais, o Candomblé poderá então - e só então - atingir o status de religião, na medida em que possui milhares e milhares de seguidores e adeptos, em sua maioria atrelados a falsos líderes que não possuem as verdadeiras atribuições que distinguem os legítimos sacerdotes, devendo-se ressaltar  que, o processo iniciático é insuficiente para  habilitar o indivíduo no exercício do cargo sacerdotal de hierarquia máxima.
A habilitação ao referido cargo não pressupõe simplesmente que o candidato seja iniciado. É necessário e indispensável que haja para isso, uma determinação dos próprios Orixás, o que só pode ser constatado através da consulta ao Oráculo de Ifá.
A ética religiosa pode, no entanto, ser consoante com o resto do sistema religioso e estar ao mesmo tempo, em contradição formal com ele, o que provoca certas tensões que fornecem novos impulsos, que tendem a produzir mudanças no sistema geral, ocasionando então, o surgimento de um ou vários grupos dissidentes, que, orientados pelos fundamentos principais do grupo originário, determinam, para seus componentes, mudanças no sistema geral e, apartando-se, estabelecem-se como seitas.
A conceituação de "seita" difere suficientemente para que não possa ser aceita como classificação para o Candomblé ao entendermos que: "Uma seita é um grupo religioso formado em protesto a outro grupo religioso, e geralmente se separando dele; sua formação representa a manutenção de credos, práticas rituais e padrões morais, mais comumente considerados pelos membros da seita como um retorno a formas mais antigas e mais puras dessa religião em particular,... com o tempo a seita muda para a posição de isolamento limitado, à parte do sistema circundante, ou para um estado de adaptação à ele." 
Seita seria portanto, o resultado da separação de um grupo dissidente de uma religião, de um culto estabelecido ou até mesmo de outra seita, onde o surgimento de uma nova seita seria o resultado da canalização do descontentamento criado por divergências de qualquer natureza.
O objetivo do grupo dissidente não poderia ser outro senão o de mudar, através de uma ação inovadora, alguns, se não todos os elementos que caracterizam  sua própria origem.
Diante do exposto concluímos que, o Candomblé, não podendo ser classificado como uma religião e tampouco como seita por falta de características essenciais, nada mais é do que um culto, subdividido em diversos grupos, com práticas ritualísticas que objetivam manter o sentido religioso original, orientado por liderança individual e geralmente carismática, e não sacerdotal, como era de se esperar.
Como característica comum esses grupos mantém os ritos específicos em homenagem aos Orixás, deidades africanas que servem de base ao sistema religioso em questão e cujo culto é mantido atualmente, muito mais através da manipulação dos adeptos pelo medo, do que por um sentido mais profundo de devoção religiosa.
A  base  principal  do  sistema  está  pautada  na  relação   homem-Orixá, o que deverá ser estudado de forma suscinta para que possamos atingir o objetivo do presente trabalho.

1 - “Representação dos Orixás” ( In Antologia do Negro Brasileiro. P. Alegre, Globo, 1950, pg. 310).
2 - BIRBAUM. Religião -  In: Dicionário de Ciências Sociais, Fundação Getúlio Vargas - Rio, 1987
3 - Obra citada - p. 1058, B.3.
4 - Obra citada, p.1104 A.

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